Capítulo 18
18
O fogo engolfou a carruagem toda. O teto púrpura colapsou, então nuvens de fumaça rodopiaram, um branco forte contra a escuridão da noite. Ainda mais horrível era a cor das chamas na abertura da cabine, como se o sol mesmo tivesse caído na terra, espalhando seu fogo em todas as direções.
Mas e o pai da garota?
Nunca me esquecerei da face de Yoshihide naquele momento. Ele tinha tido um impulso de ir em direção à carruagem, mas parou quando as chamas se espalharam. Então ele ficou parado com os braços esticados, olhos devorando a fumaça e chamas que envelopavam a carruagem. Com a luz do fogo que o banhavam da cabeça aos pés, pude ver todos as características de sua face feia, cheia de rugas. Seus olhos esbugalhados, seus lábios contorcidos, a pele de seus lábios contraídos: tudo descrevia uma pintura vívida do choque, do terror, e da tristeza que corria no coração de Yoshihide. Tal desolação, suspeito, não poderia ser vista nem no rosto de um ladrão condenado prestes a ter a cabeça guilhotinada, ou o mais culpado pecador pronto a enfrentar o julgamento dos Dez Reis do Inferno. Até o poderoso samurai ficou pálido com a visão e lançou um olhar medonho a Sua Majestade sobre ele.
Mas e quanto à Sua Majestade? Mordeu seus lábios e sorrindo estranhamento de vez em quando, ele olhava diretamente à frente, nunca tirando os olhos da carruagem. E a garota na carruagem – ah, não acho que tenho coragem de descrever em detalhes o que ela parecia. O branco pálido de sua face em transformação enquanto ela se asfixiava na fumaça, o comprimento embaraçado de seu cabelo enquanto ela tentava tirar as chamas nele, a beleza de seu robe de cerejeiras floridas que queimavam nas chamas: era tudo tão cruel, tão terrível!
Outro grito se sucedeu, depois mais um, até que todos nós estávamos gritando também.
E, embora tenha sido deixado preso na mansão Horikawa, o que vimos subindo nas costas da garota contra as chamas flamejantes era o macaco Yoshihide.